10 fevereiro 2010

O declínio da Democracia Liberal

Os Tories parecem estar a chegar ao poder no Reino Unido. Que estes Tories o consigam, na mais antiga e respeitada democracia liberal do mundo, é motivo de preocupação.


É difícil de acreditar que pessoas capazes sigam hoje este partido; excepto se nutrirem por ele o mesmo sentimento que se nutre por um clube de futebol, o que me parece deslocado quando se fala da res publica. Infelizmente, parece que uma coligação de “adeptos”, ignorantes, indigentes intelectuais, rancorosos, privilegiados alienados e abstencionistas será suficiente para colocar no poder, no Reino Unido, um partido proto-xenófobo.


Os valores destes Neo-Tories são explícitos, não se escondem por trás de alguma grande conspiração. Apesar de toda a tautologia Cameron a propósito do ambiente, os conservadores em Londres cortaram os impostos dos SUVs, e aumentaram as tarifas dos autocarros em 20%; fecharam 12 abrigos para sem-abrigo, passaram a cobrar aos deficientes pobres que necessitam de apoio domiciliário, e procuram acabar com casas camarárias de apoio social. E isto na micro-economia.


Na macro-economia, e apesar de os mais conceituados economistas defenderem a actual intervenção pública, com empréstimos e investimento, os Tories são apologistas de que o estado não deve intervir. Ponto. Nenhum – nenhum – outro partido de poder no mundo ocidental defende tal coisa, apenas os Tories. Nem sequer os seus companheiros polacos da “Lei e Justiça”. Anti-semitismo, homofobia e misoginia são a marca d’água do “Lei e Justiça”, mas nem eles querem abandonar os seus cidadãos à lei da selva. Até a “esquerdista radical” Merkle defende o apoio público para alavancar o desenvolvimento económico. Cameron faz gala em dizer que esta torneira deveria ser fechada, supostamente porque a dívida interna do Reino Unido vai levar o país à bancarrota. Isto quando a dívida interna britânica é das mais baixas do mundo ocidental.


David Blanchflower, um dos maiores economistas britânicos, diz que a política conservadora, a ser aplicada, faria desaparecer um milhão de empregos no Reino Unido, conduzindo o país para uma depressão de mais dez anos. No matter, os mais abastados seriam pouco afectados, só os pobres e vulneráveis se poderiam queixar.


É natural essa indiferença num grupo de pessoas que pouco conhece da working class e da sua vida. Osborne, potencial futuro ministro das finanças, entre outros disparates de etonian alheado da realidade, defende um corte nos impostos para propriedades de £1 milhão, dizendo que com isso vai beneficiar as pessoas que vivem em antigos bairros sociais. Como pode uma pessoa destas gerir as finanças de um país? Como pode uma pessoa que diz que o gasto público não teve qualquer papel no fim da Grande Depressão de 1929 ser o melhor que os Tories têm para apresentar como ministro das finanças? Não percebe nem de economia, nem de história. How unbritish can one minister be?


Outra destas criaturas é o deputado Jacob Rees-Mogg, que, com quarenta anos, anda sempre com a sua ama. Cansado das constantes referências a tal facto, gritou uma vez, irritado, “estou farto que estejam sempre a falar da minha ama, se eu andasse com o meu escudeiro vocês diriam que seria perfeitamente natural”.


Reegs-Mogg chegou mesmo a dizer, em 2006, que não via a hora de haver uma recessão séria, pois o ouro aumentaria o seu valor relativo e “I keep a gold stock in all my portfolios”.

São estas pessoas que querem governar o UK. Pessoas que estão sempre a pensar nos seus concidadãos.

A visão que têm para o Reino Unido é semelhante à que têm para a Europa, e que os levou à criação dos Europeus Conservadores e Reformistas. Tories, “Lei e Justiça” (os tais homofóbicos e anti-semitas polacos), e o “Mãe-Pátria e Liberdade” letão (simpatizantes Nazis) são os seus principais membros. What a happy bunch…

Como é possível este grupo de putos mimados, movidos pelo egoísmo e preconceito, cegos à vida real das pessoas comuns, estar a um passo da governação? Desde logo pelo domínio dos media, nomeadamente dos meios de Murdoch (e também graças a um défice de atenção, que leva as ideias ocas e inconsequentes de Cameron a nunca serem realmente postas à prova). Como retribuição pelo apoio que os meios de Murdoch lhe têm proporcionado, com campanhas vis, mentirosas e parciais, Cameron já (lhe) prometeu acabar com a lei que determina a imparcialidade política dos canais de televisão. E cortar nos fundos da BBC. Cameron diz que o único “garante de independência dos meios de comunicação audiovisual é o lucro”.

Preferir Cameron a Brown só faz sentido se se acreditar que há pessoas que valem mais que outras. Xenófobos, indiferentes ao sofrimento das pessoas comuns, e com um profundo espírito de self-entitlement, os Tories farão do próximo governo inglês o mais distante de um estado de direito desde que há memória. Não importa, desde que se possa caçar raposas.


Economicamente irreais, aliados de políticas imorais, e ansiosos por dominar o pensamento através da manipulação dos meios de comunicação. De Churchill até Cameron. Este foi o caminho dos Conservadores britânicos. Há muito a melhorar na nossa democracia ocidental.

1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

That great country (na Britain, uma verdadeira análise é feita 5 vezes por semana, contrariamente às 3 da République)...

Signed: Guess Who?

10 fevereiro, 2010 23:57  

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